Você entra na cozinha para pegar um copo d’água. Chega até lá e, de repente, para. Fica alguns segundos olhando ao redor tentando lembrar por que foi até ali.
Ou então pega o celular para responder uma mensagem, desbloqueia a tela e, poucos segundos depois, já não se lembra mais do motivo de ter pegado o aparelho.
Talvez você tenha lido a mesma página de um livro três vezes sem conseguir entender o que estava escrito. Ou tenha esquecido o nome de uma pessoa conhecida justamente no momento em que precisava lembrá-lo.
Se alguma dessas situações já aconteceu com você, saiba que não está sozinho.
Esses esquecimentos fazem parte da experiência humana e, em muitos casos, não representam um problema grave. Ainda assim, quando começam a acontecer com frequência, é natural surgir uma preocupação.
“Será que minha memória está piorando?”
Algumas pessoas chegam a pensar em doenças como Alzheimer ou acreditam que estão envelhecendo precocemente. Outras associam esses esquecimentos ao excesso de trabalho, ao cansaço ou ao estresse do dia a dia.
A verdade é que existe uma relação muito importante entre ansiedade e funcionamento cognitivo. Mas ela nem sempre é compreendida da forma correta.
Na maioria das vezes, a ansiedade não “apaga” a memória. O que ela faz é interferir em processos que acontecem antes mesmo de uma lembrança ser formada.
Entender isso pode trazer não apenas alívio, mas também uma nova forma de cuidar da própria saúde mental e da saúde cognitiva.
O cérebro foi feito para protegê-lo
Imagine que você está atravessando uma rua e, de repente, um carro surge em alta velocidade.
Sem pensar, seu coração acelera. A respiração muda. Os músculos ficam tensos. Sua atenção se concentra totalmente naquela situação.
Esse mecanismo existe para aumentar suas chances de sobrevivência.
Durante milhares de anos, ele ajudou nossos ancestrais a escapar de perigos reais.
Hoje, porém, os desafios mudaram.
Em vez de fugir de um predador, muitas pessoas convivem diariamente com prazos apertados, excesso de trabalho, preocupações financeiras, conflitos familiares, excesso de informações e uma rotina que raramente permite momentos de descanso.
O problema é que o cérebro responde a muitas dessas situações utilizando os mesmos mecanismos biológicos que utilizaria diante de uma ameaça física.
Quando isso acontece de forma ocasional, é esperado e até saudável.
Mas quando o estado de alerta permanece durante semanas ou meses, começam a surgir consequências importantes para o funcionamento cognitivo.
Antes da memória existe a atenção
Uma das maiores descobertas da neuropsicologia é que memória e atenção caminham juntas.
Na prática, não conseguimos lembrar daquilo que nunca prestamos atenção.
Imagine que sua memória seja uma biblioteca.
Antes que um livro seja colocado na estante, alguém precisa registrá-lo corretamente.
Esse “bibliotecário” é a atenção.
Quando ela está funcionando bem, novas informações são organizadas e armazenadas com mais facilidade.
Mas quando o cérebro está ocupado tentando lidar com preocupações constantes, sobra menos energia para registrar aquilo que está acontecendo ao redor.
É como tentar ouvir uma conversa importante em uma sala onde várias pessoas falam ao mesmo tempo.
Você até escuta algumas palavras, mas não consegue acompanhar o assunto inteiro.
É exatamente isso que muitas pessoas ansiosas vivem diariamente.
Elas acreditam que estão esquecendo informações, quando, na verdade, muitas delas sequer chegaram a ser registradas adequadamente.
Por isso é tão comum ouvir frases como:
“Eu leio, mas parece que nada fica.”
“As pessoas conversam comigo e depois não lembro do que foi dito.”
“Esqueço onde coloquei objetos o tempo todo.”
Em muitos casos, o problema começa na atenção, e não na memória propriamente dita.
Quando a mente nunca descansa
Quem convive com ansiedade sabe como é difícil desligar os pensamentos.
Mesmo quando o corpo está parado, a mente continua trabalhando.
Ela antecipa problemas.
Cria cenários.
Revive conversas.
Planeja soluções.
Questiona decisões.
Enquanto isso acontece, parte importante dos recursos do cérebro permanece ocupada.
Imagine tentar estudar para uma prova enquanto alguém faz perguntas para você sem parar.
Mesmo sendo inteligente, seu rendimento provavelmente cairia.
É exatamente isso que ocorre com o cérebro ansioso.
Não porque ele perdeu capacidade, mas porque está utilizando grande parte da sua energia para lidar com preocupações constantes.
Por isso, muitas pessoas descrevem a sensação de estar sempre cansadas mentalmente, mesmo após um dia em que aparentemente não fizeram tanto esforço físico.
Esse cansaço também ajuda a explicar por que tarefas simples parecem exigir muito mais energia do que antes.
Esquecer não significa, necessariamente, adoecer
Esse talvez seja um dos pontos mais importantes deste artigo.
Nossa memória não funciona como um computador.
Ela não grava absolutamente tudo.
Esquecer faz parte do funcionamento normal do cérebro.
Na verdade, esquecer algumas informações é saudável.
Se lembrássemos de absolutamente tudo o que vivemos todos os dias, nossa mente ficaria sobrecarregada.
O cérebro seleciona aquilo que considera mais importante.
Quando estamos muito ansiosos, essa seleção também muda.
Por isso, é comum esquecer pequenos detalhes do cotidiano sem que isso represente uma doença neurológica.
Naturalmente, existem situações em que alterações de memória merecem investigação profissional.
Quando os esquecimentos se tornam progressivos, começam a comprometer significativamente a rotina ou vêm acompanhados de outras alterações cognitivas importantes, a avaliação especializada é fundamental.
Mas é importante evitar conclusões precipitadas.
Nem todo esquecimento significa Alzheimer.
Nem toda dificuldade de concentração indica uma doença.
Muitas vezes, ela é um sinal de que seu cérebro está pedindo descanso, equilíbrio e cuidado.
O papel do estresse e do cortisol
Quando passamos por uma situação de estresse, nosso organismo libera diferentes substâncias para nos ajudar a reagir rapidamente. Entre elas está o cortisol, conhecido como o “hormônio do estresse”.
É importante dizer que o cortisol não é um vilão. Pelo contrário. Ele é essencial para o funcionamento do organismo. Sem ele, teríamos dificuldade para acordar pela manhã, responder a desafios e até regular processos importantes do nosso corpo.
O problema surge quando esse sistema permanece ativado durante muito tempo.
Imagine que o cérebro seja como o motor de um carro. Acelerar é necessário em determinados momentos. Porém, manter o acelerador pressionado o tempo inteiro faz com que o desgaste aconteça mais rapidamente.
Com o cérebro ocorre algo semelhante.
O estresse prolongado pode prejudicar processos relacionados à atenção, ao aprendizado e à memória. Diversos estudos em neurociência mostram que pessoas submetidas a níveis elevados de estresse por longos períodos tendem a apresentar pior desempenho em tarefas cognitivas, principalmente quando esse estresse está associado à ansiedade e ao sono de má qualidade.
Isso não significa que a ansiedade destrói o cérebro ou causa danos permanentes em todas as pessoas.
Na maioria das vezes, estamos falando de alterações funcionais. Ou seja, o cérebro continua saudável, mas está trabalhando em condições desfavoráveis.
E a boa notícia é justamente essa: quando a ansiedade diminui e hábitos saudáveis são retomados, essas funções cognitivas costumam melhorar significativamente.
O sono: um dos maiores aliados da memória
Existe um aspecto que muitas pessoas ignoram quando reclamam da memória: a qualidade do sono.
É muito comum que alguém diga:
“Minha memória está péssima.”
Mas, ao conversar um pouco mais, percebe-se que essa pessoa dorme cinco horas por noite, acorda várias vezes durante a madrugada ou leva muito tempo para conseguir pegar no sono.
O cérebro não trabalha apenas enquanto estamos acordados.
Durante o sono, ele organiza informações importantes, fortalece aprendizados, consolida memórias e realiza processos fundamentais para o bom funcionamento cognitivo.
Dormir pouco ou dormir mal compromete diretamente essas funções.
Por isso, muitas vezes, aquilo que parece ser um problema exclusivamente de memória tem uma relação muito mais forte com noites mal dormidas.
Essa é uma das razões pelas quais, no consultório, olhar para o sono costuma ser um passo importante quando alguém relata dificuldades de concentração ou esquecimentos frequentes.
Cuidar da memória também passa por cuidar do descanso.
Pequenos hábitos podem transformar a saúde cognitiva
Vivemos em uma sociedade que valoriza muito a produtividade.
É comum acreditarmos que cuidar do cérebro significa fazer palavras cruzadas, jogar aplicativos de treino cerebral ou tomar algum suplemento.
Embora algumas dessas atividades possam ser úteis em contextos específicos, elas representam apenas uma pequena parte daquilo que realmente influencia a saúde cognitiva.
Nos últimos anos, estudos têm mostrado que o cérebro responde muito mais ao conjunto dos hábitos diários do que a estratégias isoladas.
Dormir bem.
Praticar atividade física.
Manter uma alimentação equilibrada.
Cultivar boas relações sociais.
Aprender coisas novas.
Ter momentos de lazer.
Buscar ajuda quando necessário.
Tudo isso contribui para preservar o funcionamento cognitivo ao longo da vida.
A saúde do cérebro não depende de uma única decisão.
Ela é construída pelas escolhas que repetimos diariamente.
Quando procurar ajuda profissional?
Embora esquecimentos ocasionais façam parte da vida, existem situações em que vale a pena buscar uma avaliação.
Procure um profissional quando perceber que:
- os esquecimentos estão se tornando frequentes e progressivos;
- as dificuldades começam a interferir no trabalho, nos estudos ou na vida familiar;
- há mudanças importantes de comportamento ou de linguagem;
- familiares também começam a perceber essas dificuldades;
- ansiedade, estresse ou insônia estão comprometendo significativamente sua qualidade de vida.
Uma avaliação adequada permite compreender o que realmente está acontecendo.
Nem sempre a causa será ansiedade.
Da mesma forma, nem toda dificuldade cognitiva representa uma doença neurológica.
Cada pessoa possui uma história, um contexto e necessidades diferentes.
Por isso, uma avaliação individualizada é sempre o caminho mais seguro.
Mais do que memória, estamos falando sobre qualidade de vida
Talvez a principal mensagem deste artigo seja esta:
A memória não funciona sozinha.
Ela depende da atenção.
Depende do sono.
Depende das emoções.
Depende da forma como vivemos.
Quando a ansiedade ocupa grande parte da nossa energia mental, o cérebro passa a funcionar em modo de sobrevivência. Nessas condições, torna-se muito mais difícil aprender, lembrar, concentrar-se e até aproveitar os pequenos momentos do dia.
Por isso, cuidar da ansiedade vai muito além de aliviar um sofrimento emocional.
É também uma forma de proteger a saúde cognitiva.
Ao compreender melhor como seu cérebro funciona, você deixa de interpretar cada esquecimento como um sinal de fracasso ou de doença e passa a enxergá-lo dentro de um contexto muito maior.
Isso não significa ignorar sintomas importantes, mas aprender a olhar para eles com mais conhecimento e menos medo.
Uma reflexão final
Vivemos em uma época em que somos estimulados a fazer cada vez mais, responder mais rápido, produzir mais e permanecer conectados o tempo todo.
No entanto, o cérebro humano não foi projetado para viver permanentemente acelerado.
Ele precisa de pausas.
Precisa de sono.
Precisa de silêncio.
Precisa de relações significativas.
Precisa de momentos em que não esteja apenas sobrevivendo, mas realmente vivendo.
Talvez cuidar da saúde cognitiva comece exatamente aí: aprendendo a construir uma relação mais saudável consigo mesmo.
Quando fazemos isso, não estamos apenas preservando nossa memória.
Estamos preservando nossa capacidade de viver com clareza, equilíbrio e qualidade de vida ao longo dos anos.
Referências científicas
- Lupien SJ, McEwen BS, Gunnar MR, Heim C. Effects of stress throughout the lifespan on the brain, behaviour and cognition. Nature Reviews Neuroscience. 2009.
- Sandi C. Stress and cognition. Wiley Interdisciplinary Reviews: Cognitive Science. 2013.
- McEwen BS. Protective and damaging effects of stress mediators. New England Journal of Medicine. 1998.
- Walker MP. Why We Sleep. Scribner, 2017. (Livro de divulgação científica baseado em ampla literatura sobre sono e memória.)
Quer cuidar melhor da sua saúde cognitiva?
Se você percebe que a ansiedade, o estresse ou as dificuldades de atenção estão interferindo na sua rotina, buscar orientação profissional pode ser um passo importante.
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